Colunista - Éverlan Stutz

GAROTA TRANS INTERROMPIDA: NÃO PODEMOS NOS CALAR!

Por Éverlan Stutz - COLUNISTA

11/01/2021

O que dizer de um país que fica silenciado diante de um assassinato brutal de uma menina trans? Keron Ravach, 13 anos, foi morta a pauladas, socos, chutes, facadas e pedradas. O crime aconteceu segunda-feira, dia 4, na cidade de Camocim, no Ceará, estado com altos índices de violência contra a população LGBTQ+. O Brasil é um dos países que mais mata travestis e transexuais no mundo e existem pessoas que insistem em negar a violência de gênero. Um negacionismo pautado na intolerância e na tentativa de escamotear um problema nacional de segurança pública.

A morte de uma adolescente não pode ser encarada como mimimi. O descaso do governo federal com as populações vulnerabilizadas historicamente é uma afronta à Constituição Cidadã de 1988. A barbárie foi institucionalizada por um desgoverno autoritário, antidemocrático e desumano. Quando a desvairada da goiabeira diz ‘meninos vestem azul, meninas vestem rosa’, ela legitima uma segregação sem precedentes que desumaniza qualquer subjetividade que esteja fora dos padrões do ‘cidadão de bem’. É inegável que o conservadorismo de religiões cristãs é um dos fatores responsáveis por estimular a transfobia, o preconceito e a violência contra a população LGBTQ+.   

Keron tinha sonhos. Era tímida, mas pretendia ser conhecida como uma digital influencer. Ela estava passando por um processo de transição de gênero. A escola onde ela estudava emitiu uma nota de pesar, se referindo a Keron pelo nome de nascimento, Cosme de Carvalho. O que impede Cosme de ser Keron, Dandara, Thabatta, Duda ou Erika? Qual o problema dessa sociedade doente em querer padronizar as pessoas? Ministro aulas em escolas públicas desde a década de 1990. Em sala de aula, percebi como as meninas trans sofrem por não se enquadrarem em normas sociais cristalizadas que aniquilam a condição humana. São vozes silenciadas pelo ódio ao diferente, ao desprezo à condição feminina, sempre vista pelo patriarcado como ‘coisa de mulherzinha’, algo a ser aniquilado, violentado, desumanizado.   

Keron Ravach queria ser visível, ter voz, lugar de fala. Tiraram todos seus direitos, inclusive a vida. A transfobia institucional é algo que precisamos combater. As delegacias devem estar preparadas para atender a comunidade LGBTQ+ com toda dignidade necessária, os boletins de ocorrência devem ser tratados com seriedade e ética profissional. Keron sonhava em ser uma digital influencer e foi assassinada brutalmente. Ela faria 14 anos em 28 de janeiro, um dia antes do Dia Nacional da Visibilidade Trans no Brasil. Peço, em nome de toda comunidade LGBTQ+, para as pessoas que exercem alguma influência no mundo digitalizado, prestarem homenagens a essa garota que teve sua vida interrompida, denunciem, mostrem o rostinho dela e seus olhos carregados de esperança que pararam de brilhar aos 13 anos. Um país não pode ficar silenciado diante de um assassinato brutal de uma menina trans!

Foto: divulgação Éverlan Stutz

Éverlan Stutz é gay, jornalista, professor, poeta e compositor